Após algum tempo sem publicações, resolvi transcrever no blog um trecho do texto " O Marxismo Hoje", de Sérgio Lessa, por achá-lo de grande importância para os revolucionários e para o setor da esquerda que tem apostado estratégicamente na via eleitoral. O texto, na íntegra, foi publicado in Dabat, C.R. e Abreu e Lima, M.S. História do Pensamento Socialista e Libertário. UFPE, Recife, 2009.
"Nos anos de 1980, era lugar corrente a ideia de que o proletariado não mais seria o sujeito revolucionário e que o processo revolucionário seria lento e longo, cotidiano, formado por pequenas transformações políticas no sentido mais burguês e estreito, isto é, no sentido da política eleitoral-parlamentar. E quando, na década de 1990, vier o neoliberalismo (de Collor a Lula), este encontrará as melhores condições para sua implantação. O movimento operário estava em refluxo e o movimento sindical se convertera à plataforma reformista; tudo o que interessa aos sindicatos é "negociar propositivamente" com os patrões. E, por fim, os próprios revolucionários estavam em larga medida enfeitiçados pela ilusão de que se chegaria ao socialismo pela eleição de seus pares. Ao invés de confrontar o neoliberalismo a partir da luta de classes, tanto o movimento sindical como os revolucionários em larga medida se desarmaram para tal combate ao atrelarem as lutas sociais aos seus objetivos parlamentares.(...) Nessa conjuntura, o debate teórico ficou dificílimo para os revolucionários. O fato de os representantes do setor mais combativo da classe operária terem se tornado parceiros do projeto neoliberal é um forte argumento a favor da tese do desaparecimetno do operariado enquanto classe revolucionária. Além da alegada aproximação dos processos de trabalho do proletariado e dos assalariados do setor terciário, além da introduçaõ da classe operária dos países capitalistas centrais no mercado consumidor de classe média, temos agora um identidade política entre os líderes sindicais e os políticos burgueses. Sem a presença cotidiana das lutas operárias ao redor de suas bandeiras históricas, têm-se a impressão de que a classe operária perdeu sua identidade e que, nesta medida e sentido, teria se fundido com o restante dos assalariados.
Não é isso, todavia, o que de fato está acontecendo. Sem qualquer referencial revolucionário (lembremos que esta fase viveu ainda o impacto do desaparecimento da URSS) e com suas lideranças histórias se convertendo em neo-pelegos, à classe operária não restou alternativa senão adotar uma postura defensiva. Deixou de lado o confronto com o capital e adotou a estratégia suicida de cada um lutar individualmente para manter o seu emprego "garantindo", pelo seu esforço e dedicação pessoais, que a "sua" empresa não entrará em crise e que não haverá mais demissões. Ao desempregado, ao invés da luta anticapitalista, resta iludir-se que seu desemprego é resultante de sua desqualificação. Seu "empoderamento" individual resolveria a situação. O problema do desemprego não seria um problema estrutural que dependeria de soluções coletivas, mas um problema individual de quem "perdeu o bonde". Ledo engano! Sabemos que a taxa de emprego nada tem a ver com a qualificação da mão de obra mas, sim, com as necessidades da reprodução do próprio capital.
A estratégia defensiva hoje predominante nos sindicatos operários os faz parecerem politicamente com os setores da pequena burguesia, com os assalariados de um modo geral. Este fato, por mais grave e mais sério, não altera, todavia, em um átomo sequer as relações de produção oriundas do fundamento do sistema do capital. Este sistema, ainda que tenha convertido em trabalho assalariado quase todas as profissões e atividades humanas, homogeneizando-as no que diz respeito à relação de assalariamento; ainda que tenha universalizado a transformação da força de trabalho em mercadoria pela mediação do trabalho abstrato, pela sua própria essência não pode cancelar o trabalho, o intercâmbio orgânico com a natrueza, como sua categoria fundante. (...)
Os grifos são meus. Aqueles que puderem leiam na íntegra.
terça-feira, 8 de junho de 2010
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